“Meninos não choram”, “homens não demonstram sentimentos”.

Frases como essas, ditas ou implícitas, reforçam há muito tempo o que podemos entender como o pacto da masculinidade.

Aos meninos foram negadas as oportunidades de reconhecer e lidar com os seus sentimentos, resultando em gerações e gerações de adultos que carregam consigo as marcas de uma masculinidade frágil e tóxica, especialmente em detrimento às mulheres.

As consequências disso, bem sabemos.

As escolas, como locus da educação e formação de cidadãos, falhou miseravelmente na construção de um novo paradigma. Ao contrário, é bastante comum percebermos no ambiente escolar práticas e atitudes que reforçam esse pensamento: a competitividade entre os meninos; a exclusão das meninas e dos meninos que mantém amizades com elas; a exclusão e a negação da existência de outras identidades de gênero; as violências contra as mulheres e meninas… A lista é grande.

Na Maré, felizmente os meninos têm voz e espaço para expressar e trabalhar os seus sentimentos. A eles é dada a possibilidade do choro e da tristeza, bem como a oportunidade de se colocar diante do outro com firmeza e segurança, sem recorrer à força física.

Hoje vivenciamos um conflito grande, envolvendo meninos de 07 a 10 anos, que girou em torno das amizades.

Um menino estava triste porque outro disse que não seria mais seu amigo, caso ele deixasse de fazer parte do grupo que inventaram. O outro, por sua vez, vive seu último ano na escola, e apegou-se a este grupo. Outro menino sentiu-se rejeitado por seus amigos, por ter posturas um tanto teimosas, o que causa discussões frequentes. Outros meninos falaram sobre os seus incômodos.

Houve choros. Houve tristeza. Mas também houve abraços e acolhimento.

Embora a questão tenha se localizado em um grupo feito apenas de meninos, que surgiu por conta de afinidades no jogo de futebol, ali foi possível expressar os seus sentimentos com segurança, sem o receio de que alguém tirasse sarro ou os reprimisse. Nenhum deles sentiu constrangimento por estarem lidando com esse conflito no quintal, onde as outras crianças circulavam.

A conversa durou um bom tempo, e eles fizeram acordos de convivência, e alguns se abraçaram na intenção de acolher ao outro.

Após a mediação do conflito, eles foram brincar com o restante do grupo, composto por meninas e por um menino que geralmente costuma brincar mais com elas do que com os eles. E ele faz isso com segurança, porque sabe que ninguém vai julgá-lo por isso.

Ao final da brincadeira, subimos para fazer atividades coletivas, e propus brincadeiras de integração. As crianças estavam leves, se sentindo partes de um todo.

Quebrar paradigmas na educação vai além do discurso. E é essa quebra de paradigmas que caracteriza uma escola inovadora.

Ninguém aprende com aulas de. Aprendemos todos em vivências com.

Professor Rodrigo Toyama

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