A culpa
De quem é a culpa quando a criança não come nada e rejeita tudo o que lhe é oferecido?
De quem é a culpa se a criança não guarda o que tirou do lugar?
Quem carrega a culpa quando a criança dorme tarde?
De quem é a culpa se a barriga dói, se vem uma febre ou uma dor de garganta?
De quem é a culpa se vai ao dentista e tem cáries?
De quem é a culpa se a resposta às frustrações são gritos ou agressões?
De quem é a culpa quando a criança chega tarde na escola?
Quando perde suas roupas ou brinquedos?
De quem é a culpa?
De quem é a culpa quando a criança não é ouvida?
E, mais uma vez, eu me pergunto: de quem é a culpa?
As frustrações em relação ao que não dá certo na família, na maioria das vezes, recaem sobre elas, as mães. São elas mesmas que se culpam tanto, a ponto de isso consumi-las.
Vivemos em uma sociedade na qual muitas de nós, mulheres, trabalhamos fora tanto quanto nossos companheiros. Temos profissão, carreira, buscamos igualdade salarial e de tratamento. No entanto, há um detalhe: ao retornarmos para casa, já cansadas, exaustas de um dia intenso ou frustradas por não termos acompanhado de perto a rotina dos filhos, ainda nos espera o chamado trabalho “invisível”. Cozinhar, lavar, passar, organizar, cuidar das crianças. Para algumas mulheres esse trabalho em casa é maior, para outras é menor. Mas essa demanda, na grande maioria das vezes, continua sendo das mães, da figura feminina.
Por vezes, essa culpa encontra um novo destino: a escola e as professoras, que passam a ser o espaço onde se deposita aquilo que não foi possível sustentar em casa — expectativas irreais, ausências, combinados não mantidos, rotinas não construídas.
Ainda assim, lidar com as próprias frustrações é difícil. Temos a tendência de assumir cada vez mais tarefas, na tentativa de garantir que nada falte às crianças, que tudo esteja resolvido, que tudo funcione.
Talvez o que menos se diga é que nós, mulheres, não fomos ensinadas a lidar com as nossas próprias frustrações. Fomos ensinadas a engolir, dar conta. A suportar. A resolver.
Mas precisamos aprender a cultivar leveza.
A compreender que o que foi feito foi o possível — não por falta de amor ou de vontade, mas porque era o que estava ao nosso alcance naquele momento.
Esse é um exercício diário.
Aprender a não se culpar por tudo.
Como aliviar o peso dessa carga que recai sobre as mães?
Como fortalecer a parceria com a escola, em vez de transformá-la em depósito de frustrações?
Talvez o caminho passe por reconhecer que:
Precisamos dividir responsabilidades. Precisamos que alguém mais se responsabilize e participe, de forma efetiva, das tarefas e decisões.
Precisamos compreender que não é possível estar presente em tudo.
É necessário tornar a vida mais leve — para nós e para as crianças.
Esse é um movimento nosso.
Como mulheres.
Como mães.
Texto da Professora Thais


