Olá, famílias
Segue um relato que é bastante representativo sobre o dia-a-dia na Maré, a atuação dos professores e o nosso olhar para as importâncias das aprendizagens.
Eu havia planejado uma atividade em grupos: como são as aldeias indígenas no imaginário das crianças?
A proposta seria dividir o grupo em 02 ou 03, iniciar com um desenho a partir das hipóteses das crianças, e confeccionar uma maquete.
Além da construção do pensamento e a sua materialização através de desenho e maquete, havia outros objetivos em jogo: o raciocínio matemático no uso de proporções das peças da maquete; o uso da técnica de aquarela no desenho; a confrontação de hipóteses sobre como pode ser uma aldeia indígena através das conversas entre os participantes dos grupos.
Havia, ainda, um objetivo fundamental que perpassava toda a atividade. As crianças trabalhariam em grupos, e não individualmente.
Assim que propus a atividade, algumas crianças torceram o nariz. Reclamaram.
Perguntei o motivo daquelas reações.
F, 08 anos, questionou a minha decisão:
-Você sempre nos coloca para trabalhar em grupo.
E ela tinha razão. No primeiro semestre, costumo agrupar as crianças de diversas maneiras para avaliar quem trabalha bem com quem, quem se atrapalha com quem, quais são as lideranças espontâneas que surgem, e assim por diante.
Perguntei às crianças quais são as dificuldades de se trabalhar em grupo. Anotei na lousa:
• Às vezes a gente tenta fazer alguma coisa e os outros não deixam;
• Tem gente que não faz nada e só reclama;
• É difícil entrar em consenso;
• Às vezes tem briga;
• Tem gente que não escuta os outros e só faz o que quer.
Achei ótimo ser questionado, e achei ótimo também que as crianças se posicionaram (inclusive algumas que costumam não se arriscar nas rodas de conversa). E, sim, é necessário que as crianças consigam se posicionar para os seus professores! Questionar não é desrespeito!
Algumas outras crianças se manifestaram a favor do trabalho em grupos. Os argumentos foram:
• O trabalho termina mais rápido;
• A gente tem mais ideias diferentes;
• A gente se ajuda e aprende a trabalhar em equipe;
• Usamos conhecimentos diferentes.
Uau!!! Quantas falas potentes, dos dois lados.
L, de 10 anos, disse que seria bom que todos trabalhassem em grupo, justamente para superar as dificuldades que apresentaram. B, de 09 anos, contra-argumentou dizendo que poderiam aprender tudo aquilo trabalhando mesmo em duplas.
S, de 08 anos, sugeriu que as crianças poderiam ser agrupadas da maneira que preferissem: em grupos, duplas ou trios.
Dei a elas um tempo para pensar, enquanto tomávamos lanche. Campanhas foram feitas; uma tentava convencer a outra do que poderia ser melhor.
Reunimo-nos novamente, e perguntei quais eram as suas preferências.
L, de 07 anos, estava convencido de que trabalhar em dupla seria bom. Entretanto, quando viu que B, de 10 anos, a quem ele costuma seguir, preferiu trabalhar em grupo, logo mudou de ideia.
Por fim, cada criança se manifestou, e a situação ficou desta maneira: 06 crianças preferiam duplas, e 07 crianças optaram por trabalhar em grupo.
T, de 11 anos, não estava no momento da escolha, e foi agrupado com uma das duplas, formando um trio, com quem trabalhou muito bem. Escolhi a dupla que avaliei que o acolheriam melhor.
As outras 04 crianças que escolheram duplas foram divididas de acordo com o que julguei necessário para cada uma delas. Uma das duplas era formada por um menino e uma menina, os quais tenho aproximado por perceber que o menino estava sem par neste início de semestre. A outra dupla precisa de acolhimento mútuo, e estava composta por duas meninas que têm a imaginação como ponto forte.
Já as outras 07 crianças que escolheram trabalhar em grupo, reconheceram que precisavam ser divididas em um trio e um quarteto. Disseram que 07 crianças é muita gente para fazer um desenho e uma maquete. Assenti.
B, de 10 anos, manifestou o desejo de trabalhar com os seus amigos de 10 e 11 anos. Ele disse que costumam trabalhar bem, e que poderiam se ajudar.
Se eles formassem trio, as outras 04 crianças, mais novas, formariam o quarteto. Julguei importante o L, de 07 anos, passar pela frustração de não trabalhar com os meninos mais velhos, a quem ele costuma seguir. Seria um bom desafio para ele lidar com as crianças de sua idade próxima que têm, geralmente, tantas opiniões diferentes das suas.
E assim, formamos os grupos de trabalho, cada qual superando as suas próprias dificuldades.
Que bonito que tudo isso aconteceu! Quando falamos que, na Maré, o conteúdo em si não é o mais importante, é porque essas aprendizagens socioemocionais são as que mais precisam ser desenvolvidas. O tema deste trabalho era aldeias indígenas, mas poderia ser relevo brasileiro, plano cartesiano, sílabas tônicas, ou quaisquer outros conteúdos prescritos na base curricular.
Entretanto, seguindo a orientação da UNESCO, aprender a aprender é o mais importante na vida escolar de uma criança.
Afinal, quem nunca passou por dificuldades em atividades de grupos na escola, faculdade ou trabalho, que atire a primeira pedra.
😉
Com carinho,
Rô


